Semana 5 para Cerridwen: família

bala lake

“Em tempos passados, viveu em Penllyn um homem de nobre linhagem, chamado Tegid Voel, e sua morada ficava no meio do lago Tegid, e sua esposa era chamada Ceriddwen. E por ele nasceu para sua esposa um filho chamado Morvran ab Tegid, e também uma filha chamada Creirwy, a mais bela donzela no mundo era ela; e eles tinham um irmão, o mais desfavorecido homem no mundo, Avagddu.” (Hanes Taliesin)

Penllyn é uma antiga paróquia civil no condado galês de Gwynedd que abriga, entre outros, a cidade e o lago Bala. Bala lake, Llyn Tegid ou Lago Tegid,  é o maior corpo hídrico ao norte de Gales, a característica mística do lago pode ser percebida em diversas lendas e folclores existentes, como por exemplo a superstição de que a profundidade do lago não deve ou pode ser medida e que quem tentar fazê-lo vai ouvir uma voz assustadora ordenando que pare a medição ou a crença de que dragões vivem nele como relata Patricia Monaghan no livro “The Encyclopedia of Celtic Mythology and Folklore”.

O Tegid Foel, Tegyd Foël, Tegid Voel (sendo teg, belo e foel, careca segundo Oxford Dictionary of Celtic Mythology) teria sido um gigante que viveu em Pennllyn e que segundo a História de Taliesin teria morado nos arredores do Lago Bala. George Borrow escreveu em seu livro “Wild Wales” (1856) que o significado do nome do lago não seria Lago da Beleza por nada ( “The lake has certainly not its name, which signifies ‘Lake of Beauty’, for nothing”) e como podemos ver pela imagem de abertura do texto, o lugar é realmente lindíssimo. Segundo Harry Mountain em The Celtic Encyclopedia, Tegid Foel seria uma deidade guerreira associada a região e o lago seria considerado uma passagem, porta ou portal para o Outro Mundo onde ele realmente morava com sua família.

Outra referência folclórica pode ser retirada do site do Snowdonia National Park, que inclui o Bala Lake, e se refere a ele como Lago da Serenidade e cita que entre as lendas do locais existe o monstro Teggie que habita o lago e também que nas noites de luar é possível ver as luzes das torres e das edificações do palácio do Rei Tegid, marido de Cerridwen, a mãe do famoso bardo Galês Taliesin (c.534- c.599), o primeiro poeta da língua galesa, muitas vezes referenciado com Taliesin Ben Beirdd (Taliesin, cehefe dos Bardos) que teria nascido na região.

A cosmogonia, ou a estrutura do cosmos, das espiritualidades celtas é dividida em três partes : o reino da terra, o reino do mar e o reino do céu. Essa idéia de um universo tripartido é percebida no juramento contido no  Táin Bó Cúalnge, mito irlandês do Ciclo de Ulster, como referência de poder aos Três Reinos: “Manteremos a fé até o céu cair sobre nossas cabeças e nos esmagar, até a terra se abrir e nos engolir, até o mar subir e nos afogar” e norteia toda a prática do Druidismo Moderno, Reconstrucionismo Celta e demais espiritualidades célticas. Utilizando as palavras da Rowena A. Seneween no texto sobre símbolos celtas no site Templo de Avalon, podemos entender melhor como funciona a divisão dos três reinos :

“- O Céu, que está sobre nossa cabeça e nos oferece o Sol, a Lua, as estrelas e as chuvas que fertilizam a terra. Representa a luz, o calor, a inspiração (o fogo na cabeça) e os Deuses da criação.
– A Terra, que está sob nossos pés e nos dá o alimento, nos abriga e faz tudo crescer – são as raízes fortes das árvores. Representa o solo, os campos e os Espíritos da Natureza.
– O Mar, que está em nós, é a água que sacia a sede e nos dá a vida – sem a água tudo perece e morre. Representa o Portal para o Outro Mundo, os seres feéricos, o mar e os Ancestrais.”

Associar divindades a lagos, rios, mares, montanhas ou outras características geográficas é algo comum em diversas mitologias como o Rio Osun na Nigéria e Navan Fort ou Emain Macha na Irlanda do Norte e é a isso que o termo animismo se refere: acreditar que entidades não-humanas possuem “animus”, possuem alma. Logo a alma de uma montanha, de um rio, de uma árvore é tão real quanto a humana e os mitos nos apresentam isso personificando esses lugares em deuses.

É natural para mim então que a deusa que manifesta as características mais cruas e viscerais da natureza como a regência dos ciclos da vida, morte e renascimento, seja casada com o gigante que personifica o lugar que serve de passagem para o Outro Mundo, o mundo dos ancestrais. A união desses dois possibilita a existência da terceira força: a vida e suas complexidades representadas pelos seus três filhos: Morvran (o comum), Creirwy(a afortunada) e Avagddu(o desafortunado).

Além disso, devemos considerar Taliesin como filho de Cerridwen também. Toda a jornada de despertar espiritual de Gwion Bach depois de provar as 3 gotas da sabedoria o leva a ciclos de morte e renascimento por diversas formas de consciência: animais e vegetal (grão) até que possa renascer humano da própria barriga de Cerridwen. Ainda assim é preciso mais um despertar, dessa vez representado pelo saco de couro/cesta jogado ao rio, para que ele se lembre de seus aprendizados e possa se tornar Taliesin, Testa Brilhante, Chefe dos Bardos.

E finalmente temos Morda, o cego. Não é um parente, nem pertence a família mas já que falamos de todo mundo, vamos falar dele também. Morda é o exemplo de que os deuses agem através de nós mesmo que não saibamos, não vejamos, não acreditamos. Nós apenas cumprimos nosso papel fazendo o trabalho que nos foi encarregado, pois mesmo um cego pode atiçar o fogo que cozinhará o trabalho dos deuses.

Hoje eu vou ficando por aqui. Agradeço aqueles que vem ler meus textos. Perdoem-me pelo atraso.

Máh Búadach Ingen Ecnai

 

Referências:

Três reinos – Templo de Avalon
Penllyn, Gwynedd Wikipedia em inglês
Snowdonia National Park Guide
Tegid Foel – Wikipedia em inglês
Tegid Foel Oxford Reference
Livro The Celtic Encyclopedia Volume 4 de Harry Mountain
Livro The Encyclopedia of Celtic Mythology and Folklore de Patricia Monaghan
Bala Lake Wikipedia em inglês
Símbolos Celtas -Templo de Avalon

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