Encontro com o Sabugueiro

Entrei no meu bosque sagrado e vi uma árvore seca bem velha.

Ao me aproximar dela, seus galhos finos se esticaram e começaram a me agarrar e me arranhar violentamente.

Comecei a me debater e lutar contra ela, tentando me afastar depressa, mas quanto mais eu me debatia mais ela me envolvia, me amarrava e me arranhava.

Eu fui me tornando cada vez mais furiosa nas minhas investidas para me livrar do que me prendia mas a árvore parecia infinitamente mais forte e determinada que eu e me enrolava, sufocava e apertava cada vez mais. A dor e o desespero eram imensos.

Fui assolada pela sensação de impotência, de lutar contra o invencível, de me agarrar a ideia de que eu era uma mulher forte, uma guerreira poderosa e que nada poderia me restringir e me forçar daquele jeito. Eu não admitiria nenhuma violência contra mim, então eu lutava e lutava com todas as minhas forças, com todo a minha mente determinada a me livrar daquela situação, com todo o fôlego dos meus pulmões…

Era impossível.

Era impossível… A constatação clara disso veio a minha mente e agora eu gritava e chorava em meio a fúria de resistir. As lágrimas escorriam quentes pela minha face vermelha de tanto fazer força, meu corpo estava agora completamente suado e molhado, arranhado e atado, preso, envolvido por mil galhos que me rodeavam e prendiam como cordas ou cipós. Quanto mais eu resistia mais ela me apertava. Não era possível fugir.

Eu nunca sairia dali.

Fui perdendo a força a medida que chorava… abandonei toda e qualquer ideia de que eu conseguiria sair dali. Chorei minha fraqueza, chorei minha incompetência, chorei minha burrice, chorei e me abandonei.

Eu não tinha mais forças para resistir. Soltei o corpo, largando meu peso sobre os galhos que me enrolavam. E chorei, chorei, chorei por um longo tempo…

Tanto tempo que não consegui perceber quando tudo começou a mudar. Os galhos não me prendiam. Os galhos me abraçavam e me acolhiam. Me ninavam como se eu estivesse no colo da árvore.

“Essa raiva é sua. A violência é sua. São suas reações aos seus medos. Pare de temer e sinta.” – ouvi o espírito do Sabugueiro dizer. Percebi que eu não estava mais envolta pelos galhos, eu estava sentada no gramado embaixo de um lindo sabugueiro florido e ao meu lado o espírito do Sabugueiro era uma donzela adolescente tranquila, amigável e sorridente.

“Venha comigo.”- ela me pegou pela mão e caminhamos como amigas pelo jardim ao redor. Era tão agradável estar com ela que eu me sentia leve e calma, então me lembrei de agradecer pelo que aconteceu essa semana e eu pensei que poderia ter o dedo dela na solução pois era algo que se arrastava a muito tempo na minha vida.

“Veja, isso que você me agradece apenas percorreu o seu caminho correto. Você não forçou ou tentou controlar. Você apenas deixou o fluxo seguir e a vida mudar e por ter confiado sem medo, tudo se organizou naturalmente e você hoje pode receber essa benção porque ela já estava no seu caminho. Quando você tenta controlar o que acontece, as coisas não vão acontecer por causa disso, mas você vai sentir muitas coisas ruins: ansiedade, medo, frustração, dor, sofrimento, impotência… a raiva que você sente é uma resposta a isso.”

Eu já não estava mais no jardim, eu estava tão calma, leve e tranquila que entrei no meu vazio interior, onde habita o silêncio da plenitude.

“Apenas solte o controle e se abandone no fluxo. Soltar e fluir.”

Fiquei um bom tempo na escuridão da minha própria paz…

Em algum momento voltei e estou aqui.

Beijo no coração

Máh Búadach

Esse texto foi inspirado na minha vivência com o Sabugueiro durante os estudos do Ogham com o Fidnemed an Síd, grupo de druidismo de São Paulo guiado pela Druidesa Rowena A. Seneween.

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